03. Oséias (Parte 1) | Empty Soul




Nos próximos instantes você irá acompanhar o terceiro capítulo da história "Alma Vazia", chamado "OSÉIAS". Também será dividido em duas partes emocionantes. Então, sente-se, relaxe e boa leitura! 








Alícia, com um pulo foi pro canto da cama, se enrolando no lençol, como um cãozinho assustado. Se assustou com o próprio grito e temeu que alguém tivesse escutado.
Saul se espantou com a reação da moça e tornou a recobrar o juízo. Como se houvesse recuperado a memória do seu próprio “eu”, olhou pra si mesmo e ao redor espantado pela situação, percebeu nos lençóis muito sangue que até então não havia percebido. Parecia que, enfim, havia voltado ao estado racional. Aquele grito acordou a sua parte que estava dormindo. 

Aquele grito cortou o efeito do álcool ingerido e das drogas que pairavam ao ar. Rapidamente se vestiu. A moça continuava com os olhos fitados nele com cara de medo e espanto, esperava-o recuperar, em silêncio, do que havia acontecido. Ele sentou-se ao lado dela. Ela, tentando esquivar-se, com medo, cedeu a sua mão fechando os olhos. Saul, delicadamente toma sua mão e com um beijo a pede desculpas.

— Eu não sei o que dizer... Eu não sabia que você era virgem! Nunca imaginei que...

— Uma prostituta virgem? Interrompeu, cessando o silêncio.

— Não diz isso! Estou confuso agora. Quer dizer que eu fui seu primeiro...

— Cliente? Sim.
Saul nunca se sentiu tão desconfortável. Não sabia o que dizer. Ficaram mudos por alguns segundos. Só se ouvia o barulho abafado do som vindo de fora. Mas os pensamentos na cabeça deles era ensurdecedor. Aquele silêncio onde não há vácuo, aquele silêncio que as mentes conversam entre. Até que Saul resolve quebrar o silêncio verbal.

— Olha, você é uma garota jovem, bonita e divertida.

— Divertida... Sério? Indagou em tom de ironia. 

— Não nesse tom. Não quero ofendê-la. Eu só acho que você pode conseguir facilmente um outro rumo pra sua vida. Um rumo melhor do qual você pode se orgulhar no futuro.

— Você nem me conhece...

— Eu sei que não deve ter sido uma escolha fácil pra você ter chegado a esse ponto. Ninguém escolhe esse caminho sem precisar de verdade.

— Definitivamente, não foi uma escolha fácil...

— Eu imagino. Mas me conte mais sobre você! Onde estão seus pais?
— Não tenho.
Um silêncio tomou novamente a conversa. Alícia olhava pra baixo demonstrando vergonha. Sentia que devia explicações. Temia a reação da sua cafetina ao descobrir o que aconteceu. Preocupada, começou a falar.

— Meus pais morreram. Não conheci meu pai. Minha mãe era garota de programa. Ela me teve cedo. Aos 23 anos. Meu pai, certamente foi um dos inúmeros clientes dela. Assim que eu nasci, minha avó me tomou e me criou. Nunca tive contato com ela. Minha avó não deixava. Eu apenas a conhecia através de fotos em um álbum velho que achei no porão. A única vez que a pude tocar foi em seu velório. Ela foi encontrada morta a 300 metros daqui, com sinais de hematomas as quais não puderam ser disfarçados através da maquiagem. O laudo médico constatou necrofilia. O cadáver estava morto há 3 dias mas havia sêmen fresco em todo o corpo.

— Que atrocidade! Estranhou Saul, com nojo.

— Desde então, vivo com minha avó que agora está doente. Diferente da minha mãe, ela sempre trabalhou a vida inteira, duramente, pra conseguir me criar.

— O que ela tem?

— Ela teve uma série de infarto. Muito cabeça dura, nunca se preocupa com a própria saúde. Sempre achava que uma dorzinha nunca pudesse derrubá-la. E parecia que não. Minha avó não se deixava abater por nada. No primeiro infarto ela se recuperou bem. Por um milagre ela não morreu. E logo que os médicos deram alta, lá ia a dona Ângela varrendo o quintal. Até que deu outro. Mais forte ainda. Nesse ela não conseguiu se recuperar tão bem. O primeiro infarto não lhe causou nenhuma sequela, na verdade era um aviso do que poderia vir.

— Imagino que, por isso, você tenha recorrido a essa medida trágica.

— Eu trabalhava de balconista numa lanchonete da cidade, em horário comercial. Fazia bicos a noite em festas da região como garçonete. Até que um dia, o senhor Muller foi até a lanchonete onde eu trabalhava conversávamos por horas. Ele era muito gentil. Quase todos os dias ia lá tomar café. Eu era muito inocente. Eu acabava dando muita bola pra ele e nisso fui advertida pela minha patroa.

— Então foi ele, o próprio dono da Billbul, quem convenceu você?

— Ele chegou sim a me oferecer esse “trabalho”, mas eu sempre encarava como uma brincadeira. Ele fazia muitas brincadeiras do tipo.

— E como foi que você veio parar aqui então?

— Mês passado minha ex-patroa me despediu. Ela não quis dizer porquê, nem deu detalhes. Fiquei desesperada. Em casa eu já não tinha mais o que comer. Aquele trabalho era tudo o que eu tinha pra sustentar a casa. Sem falar nos remédios da minha avó que não são baratos. A minha avó chegou a ser internada em estado crítico pela falta dos remédios e seus ossos... Estavam à mostra. Alícia começa a se emocionar ao lembrar do triste estado de saúde em que se encontrava a sua avó a quem tanto amava. A dona Ângela era tudo que ela tinha. Se ela morresse, ela não saberia o que fazer. Não conteve as lágrimas ao imaginar isso. Saul começa a se aproximar pouco a pouco, a medida que conquista a sua confiança.

— Você não precisa falar sobre isso se não quiser.

—... Foi então que eu voltei à lanchonete, com intensão de implorar meu trabalho de volta, depois de ter procurado na cidade inteira. Os bicos que antes tinha todos os finais de semana, não davam pra suprir as nossas necessidades. — Dizia chorando — A minha ex-patroa nem deu papo. Faltou ajoelhar aos seus pés. Saí chorando do lugar, meus colegas olhavam sem poderem ajudar. Depois disso retornei ao mesmo lugar, mas não foi pra pedir emprego. Eu sabia exatamente o horário que o senhor Muller passava pra tomar seu café. Então, eu esperei do lado de fora pra pedir-lhe um emprego em umas de suas empresas. Eu aceitaria qualquer coisa, mesmo que temporariamente. Não queria que o meu fim fosse parecido com o da minha mãe. Então ele saiu e fui logo atrás dele. Chamei ele e implorei, quase chorando, por ajuda. Mas tudo o que ele poderia me oferecer era isso aqui. E era tudo que eu podia fazer pra sobreviver.

Alícia se entregou ao choro. Saul viu ali a oportunidade perfeita de abraçá-la sem ser invasivo.

Saul se sentiu comovido com a história da moça e queria ajudar de alguma forma, além de oferecer dinheiro. Ele lembrou que seu pai estava selecionando currículos para contratar uma secretária.

— Ei! Não chora. Tá tudo bem! — Tentou acalmá-la — Acho que posso te ajudar.

— Não precisa. Estou bem. — Disse, tentando enxugar as lágrimas. — Só peço que não conte o que aconteceu, por favor!

— Claro que não! Fica entre nós. Meu pai está precisando de uma secretária. Se você quiser eu posso falar com ele.

— Sério?

— Sim! Você parece ser uma pessoa dedicada e séria. Sua humildade me impressionou. Você fala muito bem e é comunicativa. É o perfil ideal. A antiga secretária do meu pai era muito carrancuda! — Sorriu, tentando aliviar o clima.

— Obrigada! Nem sei como agradecer!

— Mas tem uma coisa...

— O que é?

— Só farei se você sair desse lugar agora mesmo, topa?

— Sim! Mas como? Não posso simplesmente sair.

— Verdade...

O casal de jovens estavam sem saber como sairiam dali sem chamar atenção de ninguém. O tempo deles estavam acabando. Foi então que Alícia teve uma ideia.

— Acho que já sei. Nós vamos sair normalmente, como se tivéssemos acabado... Você sabe...

— Sim.

— Então, vou descer ao banheiro, onde tem uma janela que dá pra eu passar.

— E pra onde sai essa essa janela?

— É fácil encontrar. A janela fica ao lado direito depois da entrada. Fica ao lado da porta de saída da cozinha. Você vai ver uma lixeira e as luzes do banheiro acesas.

— Entendi. Então, toma esse dinheiro. — Abriu sua carteira e, sem graça, ofereceu a moça.

— Olha... — A gente não fez nada...

— Mas se você não pegar o dinheiro, vai parecer que não aconteceu nada. Vamos sair daqui sem deixar rastros, tudo bem?

— Você está certo... — Cabisbaixa, aceitou o dinheiro e permaneceu em silêncio.

—Então, vamos?

Eles, então, saíram do quarto como se tivessem tido a melhor noite de suas vidas. Talvez foi. Pra Saul, que antes nunca havia experimentado nada do tipo, ali conheceu uma outra versão de si mesmo. E pra Alícia, que antes não via solução alguma para o seu problema familiar, agora vê uma luz no fim do túnel. Pela primeira vez, Alícia se sentiu segura. Até então, nunca houve uma figura masculina pra protegê-la. Nascia ali um sentimento que pra ela era estranho.
Foram, então, seguir o plano que haviam combinado. Saul desceu aos seus amigos, foi recebido como se tivesse ganhado outra partida de futebol.

— aí tá o campeão da noite! — Mateus provocou. Diz aí como foi a jogada lá em cima.

— Legal. Mas eu preciso ir ali fora respirar um ar fresco e já volto. 

Mateus solta uma risada e diz:

— Qual é? Já está cansado? Você ainda não aproveitou nada.

— Mateus, acho que já deu. Acho melhor a gente pagar a conta e ir embora. — interferiu Felipe.

— Fracotes... Não aguentam uma noite...

— Então vamos no caixa. — Interrompeu novamente.

Saul, com medo de fazer o plano ir por água abaixo, disse:

— Ótimo. Toma esse dinheiro, vou esperar lá fora. — Sacou um dinheiro do bolso e entregou a Felipe. Pra ganhar tempo, foi logo ao local combinado. A sorte dele é que estava uma fila no caixa, esse tempo seria preciso pra conversar com Alícia.

Chegando lá, ele a encontra com uma cara assustada.

— Nossa! Que susto! Achei que não vinha mais.

— Desculpe. Meus amigos me atrasaram e eles estão saindo agora. Terei que ser rápido.

— Mas... Achei que fosse comigo...

— Não vai ter jeito, não imaginei que eles iriam sair agora.

— O que vou fazer então?

— Chame um taxi, vou te passar meu número de telefone e amanhã combinamos de conversar.

— Tudo bem.

Saul voltou aos seus amigos, que já estavam procurando por ele.

— Onde você estava? — Perguntou Felipe, preocupado.

— Só fui ali atrás, estava meio apertado. Vamos embora?

Naquele dia Saul ia embora pra casa diferente. Com outra mente, com outros pensamentos e com novos desejos. Com certeza ele arrependeu do que houve naquela noite, mas ao mesmo tempo pensava consigo mesmo que era necessária tais experiências.

***

Numa manhã normal de segunda feira, Dr. Derek Bryan se levanta cedo como de costume, toma seu café beija seus filhos e esposa e segue ao trabalho. A reclamação mais frequente de sua esposa é de que Derek passa todo o seu tempo fora de casa. Passa a manhã toda no laboratório da faculdade e a noite dava aulas. Ele estava fascinado pela teoria. Na última reunião com os diretores, propôs um experimento que não deu certo. Mostrou um estudo feito com células tronco e grafeno. O plano dele é envolver tecnologia e ciência no mais íntimo da alma humana. No estudo dele, ele utilizou o grafeno como forma de acelerar o processo de revitalização das células mortas através das células tronco. Numa “cápsula humana”, circularia componentes essenciais como sais minerais e vitaminas modificadas, junto com ondas eletromagnéticas, capazes de reativar a função cerebral. Dr. Derek estava muito animado com a ideia, porém precisava do aval da direção da universidade pra realizar os testes. A tecnologia grafeno é barata, mas a tecnologia não depende só do grafeno mas também de componentes minerais caros além de células tronco que ainda é pauta de discussão no meio religioso.

Todos achavam o Dr. Derek o mais maluco de todos, porém era um dos preferidos pelo seu jeito extrovertido. Era a figura de um verdadeiro cientista maluco. Todos que viam seu projeto tinha certeza que ele era maluco porém ninguém duvidava de sua capacidade. Na verdade as pessoas tinham pena porque não era um projeto dele mas sim um projeto ambicioso da faculdade.  

Seu melhor amigo é o professor de filosofia, Professor Henrique. Sempre deu aquele apoio moral. A pesar de ser querido, preferia não fazer amizades com os outros professores e funcionários. Acreditava que laços afetivos só atrapalharia a sua pesquisa. Por isso ele sempre andava sozinho, pra ele, tudo era mais rápido se tudo fosse feito da forma dele. Dentre os professores, apenas Henrique tinha intimidade com ele. Era aquele amigo que sempre saia pra tomar um uísque depois da faculdade.

— E aí, Derek, como anda o projeto?

— Na mesma, Henry. A diretoria não aprovou o orçamento pra essa pesquisa. Custaria muito caro.

— Já era de se esperar. Mas como eles querem desenvolver essa teoria sem um investimento?

— O problema é que envolve muito dinheiro. Pra construir essa máquina demanda muito dinheiro, sem falar da burocracia que é trabalhar com células tronco. Até parece que estamos vivendo em 2018.

— Velhos tempos.

— Com certeza...

— Mas você não é o único incumbido a descobrir coisas estranhas. A paleontologia, juntos com os biólogos, querem reconstruir um gene de um dinossauro pra criar um embrião.

— Sério? Como eles farão isso?

— Não sou bom em ciências, pelo que eu entendi, querem reconstituir o DNA, modificando a partir de uma ave ou réptil que descende mais proximamente à espécie. Resumindo: vão modificar o DNA e colocar num ovo pra uma galinha chocar. 

— Riu.

Doutor Derek, parou por alguns instantes e disse:

— É isso! — Correu pra sua sala onde havia um monte de anotações em quadros e paredes.

— O que foi, Derek? — Seguiu Henrique.

— Eu estava errado esse tempo todo. Como minha mente é fechada! Como não pensei nisso antes?

— Vai copiar o pessoal da paleontologia?

— Não exatamente. — Começou a apagar e escrever no quadro enquanto falava.

— A minha teoria é complexa e cara. Com todo esse maquinário eu não conseguiria ter os resultados que eu queria.

— Como assim?

— A coisa é mais simples do que eu imaginava. O mundo está mais moderno. A comunidade científica não iria aprovar algo tão pesado. O segredo está na simplicidade. Na nanotecnologia. Meu projeto está do lado errado. Não é de fora pra dentro que vou conseguir, vai ser de dentro pra fora. Eu posso usar um ou vários microchips em vários pontos do corpo humano pra fazer o que a cápsula faria. Basta acoplar as substâncias que serão necessárias para o estímulo vital. Esse mesmo chip será responsável por transmitir ondas eletromagnéticas, que estimularia a atividade cerebral, juntamente com as substâncias que serão liberadas na corrente sanguínea. Tudo isso seria administrado por fora. Através de um computador ou dispositivo que ordenará os sinais.

— UAL.

— O que achou da ideia?

— Bom, pra falar a verdade eu não entendi nada. — Riu.

— Vai se fuder. — Brincou.

Aquela conversa foi a mais importante que Derek poderia ter. Era o que faltava pra fechar sua teoria. A resposta atendia a tudo o que ele precisava: meios mais acessíveis para o seu experimento. Agora, com o projeto em mãos, o seu desafio é fazer o teste em ratos de laboratório.


*** 


Saul já estava ansioso por alguma resposta da Alícia. Passou um dia inteiro sem ao menos receber uma mensagem ou sinal de vida da moça. Ele já estava acreditando que foi golpeado. Ao acordar, a primeira coisa que fez, foi conferir o celular pra checar se havia novas mensagens. Aparentemente tudo normal, bloqueou o celular e foi ao banheiro. Então, de repente recebe uma mensagem de um número estranho. A mensagem dizia apenas “oi”. Ele responde: “Oi. Quem é você? Seu perfil está sem foto.”. Era Alícia. “Sou eu, Alícia, lembra de mim?” perguntou. Nisso, salvou o contato pra poder visualizar a foto. “Claro! Eu estava esperando sua mensagem pra eu marcar com o meu pai a sua entrevista. Agora que tenho seu telefone vou mandar pra ele.” Saul fica aliviado com a mensagem de Alícia. Ele vai imediatamente tomar café com seus pais. 

— Bom dia pai, bom dia mãe! — Disse alegremente.  

— Bom dia filho. Pelo jeito, teve bons sonhos essa noite!

— Nada a ver, mãe. Por que diz isso?

— Nunca vi você acordando tão feliz. — Disse servindo o café e dando um beijo no rosto.

— Ah, para mãe! estou normal.

— Olha, filho, você saiu no jornal local! — mostrou o pai, uma foto dele no jogo do final de semana.

— Que legal. Não tinha visto... Pai...

— Oi, filho?

— Aquela vaga de secretária ainda tá vazia?

— Sim. Até recebi alguns currículos, mas não me agradei do perfil das moças. — explicou, Jonas.

— Como assim, você tá procurando uma secretária ou uma esposa nova? — brincou Ana.

— Não é isso, amor. É que a última secretária era muito arrogante. Dessa vez preciso contratar uma pessoa mais simpática.

— Sei viu, sr. Kannenberg

— É sério. Mas, filho, por que a pergunta?

— É que eu conheço uma amiga que tá precisando muito trabalhar. Ela fazia bicos em festas e era garçonete. Ela é muito simpática, achei que iria gostar.

— Entendi. Se você a conhece, então posso confiar. Fale com ela pra ir ao meu escritório hoje às 10h da manhã. Se ela puder, claro.

— Claro que pode. Vou falar com ela.

Saul não pode conter a alegria. Acabou te tomar seu café e partiu pra escola. No próprio caminho Saul envia uma mensagem a Alícia.
— Não acredito, vó!

— O que houve, menina? — indagou a avó de Alícia.

— Consegui uma entrevista de emprego! Respondeu muito animada.

Sua avó se sentia culpada pelo que estava acontecendo. Nada mais emocionava, ainda que seja a melhor notícia, ela se mantida intacta.

Alícia veste o melhor vestido, calça o melhor sapato e vai ao escritório dos Kanenbergs.

Chega à atendente para anunciar sua chegada.


— Oi!

— Boa tarde! Em que posso ajudá-la?

— Meu nome é Alícia, e vim para a entrevista com o sr. Kanenberg.

— Ah, sim! Ele já está esperando por você. A sala dele é a última virando à direita. 

— Tudo bem, obrigada!

Alícia nunca se sentiu tão nervosa. Chegou a porta e respirou fundo pra se acalmar e bateu a porta. Ela pode ouvir as pisadas do sapato social de Jonas em sua direção.

— Alícia? Perguntou.

— Sim! Prazer.

— Prazer é todo meu, Alícia. Eu sou Jonas, você já deve me conhecer.

— Claro que sim. O senhor é um homem notável em Nova Cidade, quem não conheceria o senhor? — sorriu.

— Obrigado. Pode se assentar, por favor.

— Com licença.

— Então, fiquei sabendo pelo meu filho que você procurava emprego. Imagino que já estudou com ele.

Nesse momento, Alícia tenta criar em sua mente uma nova realidade. Afinal, não seria poderia dizer que havia conhecido Saul numa casa de prazeres. 

— Na verdade não. Eu estudei no colégio Maria das Dores.

— Então, como conhece ele? — Insistiu.

— Eu trabalhava numa lanchonete onde seu filho ia sempre, com seus amigos. Foi aí que começamos a conversar e a nos conhecer.

— Entendi... — Jonas parece não ter sido convencido. Mas isso era o de menos. Continuou:

— Então, conte-me mais sobre seu histórico profissional. Você sempre trabalhou nessa lanchonete?

— Sim. Depois que minha avó ficou acamada, logo depois que eu me formei, eu procurei trabalhar de qualquer forma. Meu primeiro emprego foi lá na lanchonete, em horário comercial. E quando eu saia eu fazia bicos como garçonete nas festas que surgiam na região.

— Que bacana. É raro ver uma moça que se preocupe com a família. Mas... Sem querer ser invasivo, o que houve com a sua avó? Onde estão seus pais?

— Minha avó teve uma série de derrames. Ela não consegue se levantar e fazer serviço pesado, mas ela é durona, ela não aceita ajuda pra nada. Já meus pais... Morreram. Só ela sobrou. — Disse Alícia, tentando disfarçar sua emoção, com um sorriso demorado.

— Nossa... Sinto muito pelos seus pais e pela sua avó...

— Obrigada, sr. Kannenberg.

— Bom. Acho que já perguntei tudo o que precisava. — Se levantou da cadeira e estendeu a mão à Alícia. — Você está contratada.

— Sério? Muito obrigada! Nem sei como agradecer a confiança.

— Imagina. Você é amiga do meu filho e pelo que percebi, você é uma moça trabalhadora e humilde. Pode passar no RH pra dar entrada na papelada. Amanhã mesmo poderá começar a fazer parte da nossa equipe.
— Que ótimo. Estou muito grata, e prometo não decepcionar o senhor.
Alícia não sabia como conter a emoção. Era tudo que ela queria: um emprego fixo, pra dar uma vida digna pra sua avó, quem tanto lutou por ela.

Alícia mal poderia esperar pra chegar em casa e contar pra sua avó e Saul, por mensagem. O sr. Kannenberg Kannenberg realmente gostou da moça, sua simpatia foi o que mais chamou a atenção.
Como de costume, Saul passou no escritório do pai pra ir embora. O escritório era próximo à escola e todos os dias ele passava por lá pra ir embora junto com o pai pra almoçar.

— Oi, pai! Conversou com a Alícia?

— Sim. Ela é muito simpática e jovem. É a funcionária que eu procurava.

— Que bom que gostou.

— Espero que ela seja competente e aprenda o serviço rápido. A final, o aviso da última secretária já está acabando.

— Não se preocupe, você encontrou a pessoa certa. Ela é muito séria e competente.

— Ela me contou sobre a avó dela. Muito triste o que essa moça tão jovem está passando!

— Com certeza.

— Eu, de alguma forma me espelhei nela. Quando ouvi a sua história, eu lembrei de mim quando meus pais morreram. Mas com muita força de vontade consegui dar a volta por cima. Acho que é isso que ela pretende fazer.

— Ela gosta muito da avó dela. Ela faria de tudo pra retribuir a ela o seu cuidado. Pode ter certeza, pai.

— Eu sei. Ela disse que conheceu você na lanchonete onde ela trabalhava. —Nesse momento, Saul foi pego de surpresa. Não havia pensado nisso. — Estranho que eu nunca vi você indo a essa lanchonete, ainda mais com os seus colegas de sala.

— Fui poucas vezes. No dia que eu conheci ela, foi num dia que saímos mais cedo da escola e fomos até lá até dar hora de vir pro seu escritório. Ela faz um capuccino da hora. Sempre passo por lá rapidinho pra tomar.

— Entendi. Ela é bonita. Pena que não é menina de igreja, se não vocês formariam um bom casal. — Insinuou, deixando Saul sem graça.

— Imagina, pai. Somos só amigos.

Era o que dizia, mas sua mente não concordava com o que saia da sua boca. Saul tinha medo de seus pais descobrirem o que houve naquela noite. Ele tenta, então, colocar em ação um plano inconsciente, fruto de um amor proibido que começou da maneira errada possível, pelo menos era o que dizia sua religião. 



O que Saul fará pra ficar com Alícia? Que plano é esse que ele trama? No próximo capítulo, Dr. Bryen Derick faz seu primeiro experimentos em ratos de laboratório. Saul convida Alícia pra um culto e o que acontece lá, aterroriza Alícia. Até próxima semana! 

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