E a greve? | Artigo de Opinião



A greve dos caminhoneiros foi sem dúvidas um dos maiores acontecimentos, até agora, neste ano de 2018. Esse movimento conseguiu mexer com todas as camadas sociais brasileiras, as quais sentiram ferrenhamente o impacto do seu protesto. Mas, por que, até então, não me posicionei publicamente sobre o assunto?

Como um bom observador que sou, não queria expressar nenhuma opinião antecipada. O clima era incerto; o caos, que já estava instalado há muito, foi retirado debaixo do tapete e todos assustaram. Não me posicionei antes pois queria oferecer uma visão mais ampla sobre tudo o que aconteceu e analisarmos juntos se realmente valeu a pena.

Nessa greve houve de tudo; desde trabalhadores honestos reivindicando direitos a ativistas políticos oportunistas. A ideia primária do movimento era pura e justa, o preço dos combustíveis realmente era de se indignar com toda força. A classe dos caminhoneiros, antes dessa greve, era insignificante para a elite política, porém, ao verem a força dos tais, recuaram e abraçaram a causa, quando na verdade só estavam "pegando carona" nesse movimento que depois virou jogo político para alguns.

Ambos os lados extremistas se apropriaram da causa para propagar interesses políticos. De um lado, a esquerda não cansava de gritar "Fora, Temer!" e pedir eleições diretas. Como não se bastasse, aproveitaram o momento de crise política para criar a falsa ilusão de que só agora o preço do combustível está caro, culpando, então, a direita por terem apoiado o Impeachment. A briga pela redução do combustível não veio de agora e quando veio, a Dilma não teve conversa com eles. Ela chamou o mesmo movimento de "ato criminoso". Vamos recordar?






Houve paralisação em Julho de 2012, em fevereiro de 2015, e em setembro, do mesmo ano, todos em governo PTistas. Ou seja, não tem como dizer que os caminhoneiros têm rabo preso com políticos, como a esquerda quer dizer. Protestaram no governo PT e agora protestam no governo Temer. Isso é democracia! A extrema esquerda quer jogar pra cima dos caminhoneiros e dizer que a cupa é deles por terem apoiado a queda da Dilma, que oportunistas!


Compare os vídeos e tente imaginar como a ex-presidente Dilma procederia no caso dessa greve. Sabe por que a esquerda e o PT não foi contra dessa vez? Porque viram o poder real da classe trabalhadora e viram ali uma oportunidade de desmontar ainda mais a imagem do presidente (uma tarefa simples) com o intuito de convocar novas eleições e propagar suas ideologias no mesmo discurso vitimista de sempre. Claro que eles não se suicidariam indo contra, né?

Do outro lado, uma espécie de direita se apropriou do mesmo discurso, dessa vez pedindo a tal "intervenção militar". Aqui não vejo muita maldade, pelo contrário, vejo aqui uma inocência muito grande e muita falta de informação a respeito da política e ignorância e desapreço por todo sistema democrático que conseguimos conquistar com muito custo, a base de sangue, literalmente. A ideia vem como uma salvação vinda do céu: os militares prenderiam os corruptos, acabavam com os impostos abusivos, melhorariam a segurança e viveríamos num paraíso. É um discurso muito inspirador, concordo, mas seria igual ao comunismo: discurso lindo, porém não funciona.
Por que eu não sou a favor da intervenção militar? É muito simples. Eu sou apreciador do sistema democrático e acredito que este é o mais justo. Um regime militar traria algumas vantagens porém o povo não teria em suas mão o mesmo poder que temos hoje, tais como o direito de escolher governantes, o direito de ser e fazer o que quiser desde que não fira direitos de outros, etc. Por defender o estado democrático, não posso aprovar essa intervenção.





Michel Temer, coitado, ninguém o apoiou a não ser os poucos aliados do governo, os quais não ousaram botar a cara pra fora. No primeiro acordo, o presidente tentou salientar algumas reivindicações, mas era tapar o sol com a pineira. O discurso de Temer não convenceu ninguém. A greve continuou e o governo dessa vez começou a perder a paciência e em outro pronunciamento, Temer ameaça a classe dizendo que aplicaria multas e acionaria as forças armadas com o pressuposto de que havia atendido a todos os pontos. Disse ainda que havia uma "minoria radical" que ainda persistia em parar o Brasil, veja:




Tal discurso só serviu pra revoltar ainda mais a classe. A "minoria radical" que parou o Brasil mostrou ainda mais a sua força ao não se entregar mesmo com ameaças.


Na sua opinião, Temer tava preocupado com as famílias que sofria com o desabastecimento?

Não! O que arregou o governo não foi o fato das "crianças serem prejudicadas pelo fechamento de escola", o que arregou o governo foi a pressão da grande elite empresária que sofreu grandemente com prejuízos por causa da paralisação. Em pronunciamentos, Temer se mostra preocupado com os prejuízos dos produtores, citando em alguns vídeos números assustadores de animais mortos e com falta de alimentos.

Valeu a pena?

Aprecio qualquer forma de manifestação, desde que seja pacífica. Acredito que isso é o exercício da democracia, a qual é garantida por lei. Só por isso já valeria a pena. Mas cadê o resultado? 

(A partir daqui segue minha opinião)

Os resultados foram muitos. Não posso dizer que tudo foi em vão. Caminhoneiros, pais de família e trabalhadores honestos que são, ficaram dias fora de casa para lutar por direitos mais que justos e ainda suportaram com garra e coragem a todas as ameaças do governo. Suportaram tanto pra tão pouco, merecendo muito mais do que foi dado.
Do outro lado, quem sofreu de verdade com o desabastecimento foram os pobres, os trabalhadores que precisavam de transporte público (que já não é de qualidade). Quem sofreu foi a dona de casa que não encontrou verduras e alimentos nos supermercados. Apoio a greve e apoiarei novamente se houvesse outra, porém temos que concordar que a classe política foi a menos afetada. Enquanto os políticos iam com seus carrões abastecidos para o congresso, o trabalhador voltava a pé para casa em meio ao perigo da violência urbana. Temos que concordar que inicialmente a briga foi pelo dísel, e só depois pela gasolina, álcool e gás de cozinha, tais esses que pegaram carona nas reivindicações depois.

Enfim, foi um movimento justo. Quero expressar minha admiração por essa classe trabalhadora que carrega, literalmente, o país nas costas. É graças a vocês, caminhoneiros, que o Brasil vive.
Que a partir de agora possamos escolher com sabedoria os nossos governantes para que não seja preciso pagar um preço tão caro como estamos todos pagando hoje. 

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